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Caminho do Despertencimento como Caminho do Descobrimento Dr. Edmar Jacintho - Editorial setembro de 2007 Nossa vida, desde que seja vida verdadeira e só pode ser vida verdadeira vida vi-vida na transumância da perda, da falta, do vazio, do oco, da sensação pra lá de aguda de que o nada entrou numa de nos fazer uma visita, com cara de que tá afim de ficar como inquilino no peito e nos olhos da gente. Falo de vida verdadeira chamando, convidando, flertando com a inferência de que se pode “existir” sem que se leve ou carregue as marcas da verdadeira vida. É o caso do neurótico, do psicótico e do histérico que, pactuados em não viverem a agudização da falta ou da perda, usam e abusam dos mais diferentes disfarces psíquicos e sociais, fazendo um “verdadeiro” périplo pelo imaginário, numa obsessão cada vez mais forte de se verem “livres” da experiência do vazio e da falta. Como o neurótico não admite a surpresa, o histérico não admite a perda e o psicótico não admite a falta, eles migram e transitam o tempo todo obcecados em encontrarem meios e métodos que os afastem da tríade acima nomeada, enchendo a vida de ritos, manias, etiquetas, cerimônias, fantasias, empapuçando a agenda de atividades e de encontros, onde tudo que é buscado tenha como finalidade estrutural não deixar espaço pra surpresa, pra perda e pra falta, que, quanto mais negadas ou denegadas, acabam incidindo em um percurso psicopatológico absurdamente, grave. Por isso, eles financiam o modismo, o consumismo e o ativismo, agentes socializados no dia-a-dia e que, por possuírem sufixo “fixo”, explicitam o prefixo do desequilíbrio, da dessingulizarição da despersonalização, parindo, por mais “increça que parível”, a estrutura da desestrutura, isto é, são carimbados pela ritualização e repetição, de onde vem o chamado TOC, que tanto pode ser, nosograficamente falando, Transtorno Obsessivo Compulsivo, como, semanticamente, pode ser, Transtorno Obsessivo do Comprador, do Consumidor, do “Comedor”... O que se depreende disto tudo é que eles são atingidos pela estrutura da desestrutura, porque são angustiosamente previsíveis e mantidos em uma cadeia associativa de comando operacional, com a práxis excessiva da repetição, mas sem nenhuma reflexão. O absurdo nasce aqui, pois eles não trabalham com pensamento reflexivo e por isto mesmo, dificilmente evoluem dentro do ponto de vista do desenvolvimento infra-lógico. É a agonia magistralmente registrada por Chico Buarque de Holanda, de que ‘todo dia ela faz sempre tudo igual...” Este é o gozo perverso da modernidade educacional, que propõe um saber que garanta estabilidade ao ser, é o gozo maligno da modernidade capitalista, que propõe um ter que garante estabilidade ao ser e o gozo sádico da sociedade epicurista, que propõe um prazer que chancele estabilidade ao ser. São as novas utopias, ejaculadas no imaginário coletivo da pós-modernidade. Aí, exatamente aí, surge a Psicanálise, na contra-mão das utopias atuais e barra/borra os processos fantasísticos, dizendo que, por mais que o sujeito tente e se arrebente na sua catexia, na descarga de seus impulsos carregados de desejos, ainda sim, o sujeito não tem acesso ao gozo absoluto e que não se goza plenamente e nem se goza permanentemente. A Psicanálise diz que no ser humano tem sempre uma falta a ser, tem sempre um “buraco” tem sempre um “espaço” na urdidura da existencialidade humana e que lidar com a falta, com a perda e com o inesperado é que destina o sujeito no teatro da história, pois os mesmos são metafi sicamente irreversíveis e inexoráveis. O não desejado mas ardentemente experimentado é fator decisivo na constituição do sujeito e que intuir o percurso das curvas, das esquinas, das quebradas e feridas narcísicas é o começo da sanidade pois nunca houve, não há e nem haverá o surgimento da maturidade psíquica sem a pedagogia do buraco psicanalítico, do escuro kiekgaardiano, da aburdificação kafkiana e a incompletude göetheana. Eis aí a síntese que urde nas entranhas de nosso tecido antropogenético. O Real se escancara a partir daqui e é a respeito disto que trataremos no jornalzinho de Novembro e então, faremos um tricô e abordaremos o Caminho do Despertencimento como Caminho do Descobrimento. Até lá, que você saiba “tratar” com a incompletude do texto e agora, vou sair de mim mesmo porque “jacintho” falta de me perder por aí... | |
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